Na Prática: Criando Personagens

Criar bons personagens pode ser um trabalho tão árduo quanto desenvolver o enredo em que eles se inserem. Então, sim, este post é sobre eles, os personagens. Simples e direto. Quais as inspirações? Como eles surgem? O que fazer para desenvolvê-los? Espero responder a estas perguntas e apoiar futuros escritores que estejam se sentindo inseguros (como um dia já me senti) a botarem suas histórias no papel.

LEMBRANDO que não sou a dona da verdade. Talvez você discorde do que vou falar a seguir. Este é o meu método.

 

Objetivo

Assumindo que já se tem um plot montado, ao criar um personagem, acho que a primeira coisa que é preciso ter em mente é qual o objetivo dele na história. Fazendo isso, você não só dá o seu norte, como também entende as suas motivações. Ao menos que o personagem passe por uma transformação no meio da jornada, esse objetivo não pode mudar. Por que? Porque é assim que nós humanos agimos.

Quando se tem um esboço do personagem, é possível distinguir se ele será plano ou redondo. Aí vai um exemplo esdrúxulo sobre o que acabei de falar:

“Manuel viu os pais padeiros serem assassinados quando criança, cresceu atormentado e hoje é policial. Sua motivação é a sede de justiça, mas não confia mais em ninguém para alcançá-la.” Em três linhas deduzimos que Manuel é um justiceiro solitário; é o papel dele na história. Ele pode continuar como personagem plano e ter este mote até o final. Ou, de repente, eu posso adicionar algo: “Um dia Manuel encontra um bebê abandonado no lixo e, num momento de compaixão, resolve cuidar dele. Os sentimentos negativos que tinha com relação a infância começam desaparecer a medida em que o menino cresce. Manuel percebe que o amor vence o ódio acima de tudo”. O menino foi o agente da mudança do justiceiro. Várias coisas podem ter acontecido no meio do caminho, mas o agente é necessário. Quando há esse tipo de diferença do personagem inicial para o final, cria-se um personagem redondo.

Foi um exemplo ruim e bem simplificado, eu sei.

 

Personalidade

A personalidade é algo que pode surgir concomitantemente à designação de um objetivo. Arriscaria dizer que é algo que também está relacionado diretamente à inspiração. Já falei sobre o tema aqui algumas vezes. Só que estou disposta a te contar um segredo: na maioria das vezes a inspiração vem da observação passiva e ativa.

Considero a observação passiva como automática. É dela que vem os personagens baseados em pessoas que conhecemos, por exemplo. Interajo com essas pessoas, linko algo dela com a história que criei. O mesmo pode acontecer a partir de outros personagens já apresentados na literatura, no cinema, na TV… O processo é um tanto inconsciente, não requer esforço.

Já a observação ativa acontece quando vamos em busca da informação. Que informação? Qualquer uma que esteja relacionada ao estudo da natureza humana. Alguns exemplos que utilizei para construir os personagens de “A Parede Branca do Meu Quarto”:

  • Psicologia;
  • Eneagrama;
  • Astrologia.

Peguei algumas matérias de psicologia na faculdade. Sempre me interessei por Astrologia. Fiz cursos para entender o Eneagrama e os eneatipos. Com exceção do primeiro (acho porque nunca me aprofundei muito), os outros dois exemplos me interesso por estudar até hoje. Ambos apresentam modelos de personalidade e ego, o que me apoiou bastante para moldar e especificar os objetivos de cada personagem. Só para se ter ideia, tenho um caderno especial onde guardo a data de aniversário, o signo e o eneatipo da Mariana e dos seus amigos.

É bom deixar claro que aqui que não acho legal seguir os modelos à risca. Eles funcionam apenas como estimulantes da inspiração.

 

Contexto 

Dependendo do tipo de personalidade e objetivo, o personagem toma as decisões de forma diferente. Uma mulher que já tinha ideais feministas no século XV não agiria da mesma forma como uma que tenha 30 anos em 2015. E se ele agisse? Bem, haveria consequências. No século XV, ela seria taxada de louca, deserdada e talvez nunca conseguisse arranjar um bom emprego caso quisesse sobreviver sozinha. Mas talvez você esteja escrevendo sobre uma mulher que obteve sucesso nesta mesma época. Daí seria preciso deixar claro o como ela chegou lá e quais foram as dificuldades. A questão geográfica também é importante: mulheres do século XV no Brasil (índias?) são diferentes das do Japão, por exemplo.

E quando minha história é num universo fantástico ou acontece em outro planeta? Neste caso, o critério das ações é bem mais livre. Ainda assim, várias explicações precisarão ser dadas. Principalmente sobre a sociedade que cerca a personagem.

Localização, época e sociedade são os valores do contexto.

 

Toques finais

Como o personagem se parece? Ele alto ou baixo? Qual é a cor da pele, dos olhos e do cabelo? Magro? Acima do peso? Do que o personagem gosta? Quais são seus hobbies? Como se veste? O que come? Pratica esportes? Gosta de cozinhar? Como se relaciona com a família? E com os outros? Qual é a profissão? Posição política? Tem algum sonho? Quem o inspira? Viajaria para a lua se tivesse a oportunidade? Prefere azul ao rosa? Alérgico a camarão? São tantas perguntas…

Os toques finais são a roupagem do personagem. Você até pode planejar alguns, mas esteja aberto(a) para aparições espontâneas no meio do texto (e precisar voltar ao capítulos anteriores para acrescentar a nova característica). Apesar de serem “finais”, não são menos importantes. São esses toques que ajudam o leitor a visualizar e se relacionar com o personagem no início da leitura.

Uma imagem singela para ilustrar o post - A evolução do Mickey
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