O peso das palavras

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As palavras têm poder. Tenho certeza que você já ouviu isso em algum lugar. No filme “O Segredo”, na palestra motivacional, no culto religioso que talvez frequente (ou vá obrigado), no divã, nas aulas de português, de filosofia ou até nas conversas com os seus avós. Pode-se dizer até que há algum tempo virou um cliché. E essa pode ser a razão de muitos não darem mais a devida atenção às próprias palavras.

Ontem fui ao teatro. Confesso que não sou lá muito fã de peças. Porém um amigo estaria atuando e, pelo que tinha lido sobre, a história me parecia interessante. Nome: The Pillowman. Sim, o homem-travesseiro. Para facilitar, vou colar aqui a sinopse da peça.

Em um regime totalitário, um escritor é interrogado sobre os peculiares contos que escreve. Ao longo do interrogatório, alguns desses contos são narrados e os detetives inferem que pode haver relação entre estes e a ação de um serial killer. O mundo real e o fictício se fundem em uma trama repleta de reviravoltas com um final surpreendente.

O roteiro é genial. Acabei me envolvendo tanto com o suspense e com os contos macabros do escritor que no final estava com medo do homem-travesseiro. Sério, ele virou tipo a segunda Maria Algodão pra mim. Porém, isso não vem ao caso. Por trás das reviravoltas e discussões sobre traumas da infância há o ensinamento que iniciei este post, só que com mais uma conotação: toda palavra que proferimos tem um peso e somos responsáveis por isso.

OK. Vivemos numa democracia muito louca, temos direito à liberdade de expressão. Então podemos sair por aí falando o que pensamos e opinarmos do jeito que quisermos, certo?

Errado.

Vejo conhecidos dizendo que o mundo ficou muito chato, que não dá mais pra fazer uma piada sem ser alvo de críticas. Que tudo está politicamente correto. Nossa, ainda bem que é assim. Significa que a sociedade está mais atenta ao que profere, mesmo que nem sempre seja de maneira consciente. Esse é o tal peso das palavras. Sentimos a responsabilidade quando a consciência faz com que pensemos nas consequências que as palavras trazem.

O escritor (personagem) de The Pillowman cria enredos incríveis, apesar de medonhos.  Na verdade, ele não percebe que mesmo incríveis, os enredos ainda são medonhos pois, na cabeça dele, os leitores se encantarão pela arte da narrativa. Quando a narrativa vira inspiração para um serial killer, ele começa a entender que, de certa forma, também é responsável pelas mortes que o psicopata-leitor cometeu. Afinal a massa de leitores não é uniforme; enquanto alguns apenas vão achar que o conto foi muito bem escrito, outros vão querer experimentar as mortes descritas.

Isso significa então que romances policiais e de terror deveriam ser banidos? Claro que não! Quando estamos conscientes, esse tipo de romance é literatura. O que o escritor precisa ter em mente é que há a possibilidade de uma pessoa não ver a história daquela maneira. E essa reflexão vale para o que falamos pelo mundo afora também.


 

Serviço

Interessados pela peça The Pillowman? Esta é a última semana que ficará em cartaz!

“The Pillowman” de Martin McDonagh
Sala Loyola – Centro Cultural de Brasília (CCB)
SGAN 601, Módulo B (início da L2 Norte, ao lado do SERPRO)
Capacidade: 220 lugares
Espaço acessível a portadores de deficiência
Duração aproximada: 120 minutos
Classificação indicativa: 16 anos
Apresentações: 4 a 27 de Março
Sextas e Sábados às 21h00 e Domingos às 19h00
(Portas se abrem 30 minutos antes do início e se fecham pontualmente)
Ingressos: R$20,00 (meia-entrada: estudantes, professores e idosos) R$40,00 (inteira)

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